Em busca do self

Organizei-me para ser compreendido por mim mesmo. Queria mesmo descobrir cada pedaço desconhecido de mim e lhe dar um nome compreensível. Uma vez ou outra me encontrei perdido, toda vez que me adjetivava. Sim, me perdi por entre os limitantes e incoerentes significados dos adjetivos que me impunha. Por várias vezes me questionando se descrições breves poderiam me sustentar, e cada vez mais percebendo que não poderia estar dentro destas. “Atitude mais frívola não há, o querer compreender-se”, pensava eu.

Ví-me como alguém sem sentido, sem congruência. E na pior das reflexões, eu ví que sim. Essa falta de sentido significava, novamente, que algo existia. E que tanto havia sentido como eu não podia alcançá-lo. Conhecer o significado disto estava acima de mim, eu me encontrava em um plano que não o meu. E quem sabe talvez se “não fosse”, eu pudesse ser dono do meu sentido, pois só assim para eu caber nas propriedades que me dava.

Contudo, todo momento de introspecção por si só é um processo orgânico de gradação e evolução. O acesso do conteúdo do seu ser é realmente algo não imediato. Todas as reflexões levam a planos que sempre são passageiros. Um lugar onde se chega e se partirá. (…)

E me afastando do início, pude compreender. Tomei consciência que cada vez que me limito, me expando. Meu vaso, delimitado por atributos no fundo e pelas bordas, cada vez mais tenho que preencher.

Tudo que dizia, eu disse, e foi organizado. Dentre os mais diversos e contraditórios predicados que me empregava, pude ver que apesar de opostos, faziam parte de mim e que isto, apesar de confuso, não significava uma descrição errada. Era somente a descrição exata de mim, afinal se não fossem reais não as compreenderia, e compreendendo, gosto da contradição.

A vida não examinada não vale a pena ser vivida.
Sócrates (470-399 a.c.).

Parceiros da Solidão

Cada parte do seu corpo sente o reflexo do profundo vazio e sua necessidade de ter o espaço ocupado.
Sentes a oquidão do seu ser transbordar de falta.
Sim, a ausência lhe é tanta que transborda de ti.

Admitamos que acima de tudo a carência, a solidão ou a solitude, são a prova de uma insatisfação causada pela falta de algum bem necessário ao bem-estar. De essência selvagem, assim como necessidades primitivas de sede e fome, está em nós, e de forma autônoma.

Por falar em autonomia, agora com um outro sentido da palavra.

Admitamos novamente que a escolha por estar só, isolado, ermo, tem essência mais rebuscada. Sendo preciso estar no controle para ser positiva, prazerosa e construtiva (a reclusão), mesmo que esta solitude seja imposta.

“Da solidão para a solitude em busca de reflexão.”

Creio que não fazes ideia do que isto significa quando falo de carência e solitude. Pelo menos até então o que tens de mim são palavras supérfluas, frases inúteis e conclusões absurdas… Mas, digo, uma nebulosa relação de troca e oposição há entre os dois.

(…)

Concordemos que ser/estar carente não necessariamente se delimita a quem está só, e na verdade esta é a menor parte. Estar carente é ter companhia. Aquele que tem companhia está sempre caído na mais profunda carência de precisar. E até para as companhias não-físicas, o “precisar” da carência é sua companhia, que pode ser a esperança (de ser preenchido) ou um sonho qualquer. Sim, admita novamente que quem precisa não está só, o querer já lhe é uma companhia.

Aquele que precisa está a fim de preencher seu vazio e tem a necessidade como fonte de força primária. Anda pelo caminho que a carência quiser que siga. E é a intensidade de sua necessidade quem determina a velocidade de seus passos.

E o destino de sua caminhada é encontrar uma fonte que jorra carência…

Carência
s.f. ter sede.

Solitude
s.f. não ter sede.

Não pense que a ausência de sede de alguém solitário é sinônimo de estar saciado. Basta refletir para entender que mesmo aquele que mais bebe, nunca estará saciado. Quanto mais carência se bebe mais sede, mais sede, mais “precisar” se tem. E quando num dia… quando num infértil dia esta fonte secar, a carência deixará de molhar seus lábios e não mais sentirá sede.

Solitude é não ter sede.

(…)

Não te preocupas meu caro amigo: nosso caminho passa pela carência.

Assim como os ponteiros do relógio que num círculo vicioso passa dezenas de vezes pelo mesmo lugar, esses ciclos se renovarão e se renovarão e se renovarão. Tempo após tempo. Indo da maior abundância de carência para o mais profundo – e seco – poço de solidão.

Não te preocupas minha cara amiga: nosso caminho também passa pela solitude.

Mesmo que seja um destino passageiro aonde se chega e, a partir de onde está, toma-se um novo rumo. Ou mesmo quando  por fatalidade a fonte que estava viva toda uma vida secou.

Tudo é passageiro.

Sim, isto é fatal.
E é nosso presente atual.
Ou será nosso futuro, o qual será novamente, uma atualidade.

O amor é fatal.
Não quisera admitir mas ele é tão intrínseco quanto a carência.
E a única garantia que lhes dou, é que essa necessidade se renovará e que dia após dia caminharemos neste ciclo, ora sedentos, ora saturados…

do amor.

Publicado em: às dezembro 24, 2011 em 12:26 am  Deixe um comentário  
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Em transe

Num instante tudo ficou lento, como se meus olhos fossem as lentes de uma câmera e tudo estivese em slow-motion. Subitamente o que eu vejo não é mais real. Aquela matéria que é tocada pela luz e é refletida para mim como imagem captada pelos meus olhos na periferia transmitida pelos meus nervos, não é a mesma que meu cérebro processa. Como se algo no caminho destes nervos modificasse as informações, como se um lapso em meu cérebro alterasse o conteúdo de minha visão.

De repente – e isto é o início – o que minhas orelhas recebem de som do ambiente não é o mesmo que escuto quando estou em transe. O único som – fiél e verdadeiro – a única imagem – que meus olhos realmente viram – são aquelas que me ativam esta “coisa”, são as últimas reais sensações que tive – e que apesar de serem minhas não tenho o direito de possuí-las. Ao final de tudo, são levadas de minha memória.

Tão repentinamente quanto, percebo que minha boca está selada, meus lábios ressecados como os daqueles que não respiram pelo nariz. O selo se rompe para dizer coisas das quais não tenho intenção. Como se por um momento todos os órgãos os quais preciso para falar estivessem sob comando de algo ou alguém que não eu.

Um estímulo ativa em mim uma resposta. Uma espécie de comando que me deixa hipnotizado, e ao entrar em transe deixasse as coisas fluírem como devem fluir, como alguém que vê centenas de vezes a mesma cena ocorrer em frente aos olhos mas ao início de um novo ciclo as coisas continuassem familiares porém é incapaz prever o que acontecerá a seguir até um milésimo de segundo depois que a sequência se segue.

O que me ativa é familiar e já estive em contato com “isto” antes. Um velho amigo que passa de relance pela vista e imediatamente desencadeia um processo de regressão às memórias de um passado até então esquecido. Tudo parece ser fictíco, e sem poder recordar, continuo supondo que parece. A única certeza é a de que não estou mais em meu estado normal.

Imagens, palavras, cheiros, sons. Tontura, vertigem, fraqueza, palidez.  Todas essas sensações me vem e passam, e ao passar, levam consigo minha memória. Fico então eu parado, estático, mudo, sem saber o que houve.

Sentir-se sob controle, desta forma, não é muito interessante, principalmente à retomada do controle. Existirá um outro eu dormindo em meu insconsciente? Poderiam as sensações que sinto acordar este “eu” dentro de mim? Estaria ele querendo acordar? Quer ele tomar controle de mim ou dividir meu corpo? Será que este outro eu existe? ou estou de novo tentando encontrar uma resposta vazia para o que não consigo compreender?

Não me conformo com o fato de não saber o que aconteceu. Saber que algo existiu e não compreender o quê deixa um homem frustrado.

Penso comigo se realmente algo aconteceu. Como não consigo dar uma forma nada me existiu. Será mesmo que nada ocorreu? Se eu sei que só realmente me acontece aquilo que consigo descrever, o que eu digo disto então? Isto não me aconteceu!

Quereria eu que nada tivesse acontecido…

Será que o que me teve foi um pequeno e lento momento de loucura? E isto que faço agora, tentando descrever o que me aconteceu, é uma forma de revolta por não conseguir dissecar o conteúdo do indescritível?

Não ser e estar

Vejo-me vivendo sem saber quem sou, por vezes me perguntando e achando que esse não é eu. E este ser (o que não sou) me dói. Contudo, como não sou capaz de compreender, tenho que fazer o que faço plenamente que é:  não ser.

Parece que mais uma vez que, simplesmente,  descubro mais um pedaço de minha identidade: que não sou e isto por sí só me diz muito… me diz que eu sou.

Não sendo, hei de me empenhar em ser ao avesso. Minha vida transborda de tanto não ser. Cada minuto do dia dedicado minuciosamente ao não. Percebo que isso é verdade, “e viu Eu que isso é bom.”

Desordem

Fui um desses covardes um dia. Já estive cheio de covardia. Desordenei-me e joguei fora o que precisava e dei uma boa demonstração de grande loucura coragem. Como quem corre de algo que não deseja ou quem procura um lugar para se esconder e se sentir protegido.

Sem bater, entrei por uma porta sem saber para onde dava. (A forma de saída foi pela porta de entrada).

Oh sim, eu entrei. Entrei sem saber para onde e me assombrei. Me assombrei porque sempre pensava bastante antes de pedir para entrar por uma porta e, dessa vez, sequer pedi.

Depois do surto me organizei, e me achei – agora atrás da porta – perdido novamente.

Precisava eu me desordenar para me ordenar novamente? É fato que para se ordenar é preciso não estar ordenado, mas minha desordenação foi uma imensa loucura e somente pela grande coragem me fez aceitar. Depois de me reordenar, transformei-me em um novo covarde. Um covarde mais maduro e experiente. Como te explico isso? Se assemelha a alguém que caminhou a vida toda por um lugar e, agora, se encontra perdido andando por lá. E é tão ruim estar perdido que tenho certeza que não muito tarde encontrarei uma forma de me achar. Mesmo que me engane e me encontre em algum lugar perdido. Ou mesmo que continue perdido e minta para eu mesmo só para manter a calma e não me desesperar.

Parece que finalmente começo a tomar consciência de minha identidade como pessoa. E é nessa desordem que eu me encontro – perdido.

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