Aperto

“… Ia para os campos , a fim de estar só; deixava-me ficar ao pé de uma árvore, chorava, chamava por Deus e dizia-lhes tolices; quisera ser como as toupeiras , que via espetadas nas canas , com bichos a devorar-lhes as entranhas.

Enfim , queria rebentar , quando me lembrava de que outros , naquele instante , se a chavam abraçados ; batia grandes pancadas no chão, com o cajado ; talvez não creia; mas ,só a idéia de ir a um café me enchia de desgosto.

Pois , calmamente , um dia depois do outro , uma primavera atrás de um inverno , um outono em cima de um verão , a coisa foi-se passando , pouco a pouco , gota a gota; tudo sumiu , tudo fugiu , tudo desceu , como se diz , porque no fundo sempre resta alguma coisa , assim…um peso aqui , no peito!

Mas, visto que é a sorte que nos espera, não deve uma pessoa desanimar porque outros morrem , querer morrer também …

É preciso criar ânimo, Sr. Bovary , isso há de passar!” 

In: Madame Bovary. FLAUBERT, Gustave. Tradução de Araújo Nabuco, – São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 20.

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