Em transe

Num instante tudo ficou lento, como se meus olhos fossem as lentes de uma câmera e tudo estivese em slow-motion. Subitamente o que eu vejo não é mais real. Aquela matéria que é tocada pela luz e é refletida para mim como imagem captada pelos meus olhos na periferia transmitida pelos meus nervos, não é a mesma que meu cérebro processa. Como se algo no caminho destes nervos modificasse as informações, como se um lapso em meu cérebro alterasse o conteúdo de minha visão.

De repente – e isto é o início – o que minhas orelhas recebem de som do ambiente não é o mesmo que escuto quando estou em transe. O único som – fiél e verdadeiro – a única imagem – que meus olhos realmente viram – são aquelas que me ativam esta “coisa”, são as últimas reais sensações que tive – e que apesar de serem minhas não tenho o direito de possuí-las. Ao final de tudo, são levadas de minha memória.

Tão repentinamente quanto, percebo que minha boca está selada, meus lábios ressecados como os daqueles que não respiram pelo nariz. O selo se rompe para dizer coisas das quais não tenho intenção. Como se por um momento todos os órgãos os quais preciso para falar estivessem sob comando de algo ou alguém que não eu.

Um estímulo ativa em mim uma resposta. Uma espécie de comando que me deixa hipnotizado, e ao entrar em transe deixasse as coisas fluírem como devem fluir, como alguém que vê centenas de vezes a mesma cena ocorrer em frente aos olhos mas ao início de um novo ciclo as coisas continuassem familiares porém é incapaz prever o que acontecerá a seguir até um milésimo de segundo depois que a sequência se segue.

O que me ativa é familiar e já estive em contato com “isto” antes. Um velho amigo que passa de relance pela vista e imediatamente desencadeia um processo de regressão às memórias de um passado até então esquecido. Tudo parece ser fictíco, e sem poder recordar, continuo supondo que parece. A única certeza é a de que não estou mais em meu estado normal.

Imagens, palavras, cheiros, sons. Tontura, vertigem, fraqueza, palidez.  Todas essas sensações me vem e passam, e ao passar, levam consigo minha memória. Fico então eu parado, estático, mudo, sem saber o que houve.

Sentir-se sob controle, desta forma, não é muito interessante, principalmente à retomada do controle. Existirá um outro eu dormindo em meu insconsciente? Poderiam as sensações que sinto acordar este “eu” dentro de mim? Estaria ele querendo acordar? Quer ele tomar controle de mim ou dividir meu corpo? Será que este outro eu existe? ou estou de novo tentando encontrar uma resposta vazia para o que não consigo compreender?

Não me conformo com o fato de não saber o que aconteceu. Saber que algo existiu e não compreender o quê deixa um homem frustrado.

Penso comigo se realmente algo aconteceu. Como não consigo dar uma forma nada me existiu. Será mesmo que nada ocorreu? Se eu sei que só realmente me acontece aquilo que consigo descrever, o que eu digo disto então? Isto não me aconteceu!

Quereria eu que nada tivesse acontecido…

Será que o que me teve foi um pequeno e lento momento de loucura? E isto que faço agora, tentando descrever o que me aconteceu, é uma forma de revolta por não conseguir dissecar o conteúdo do indescritível?

in the dark

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4 thoughts on “Em transe

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