Viver

Na cama, meio morto, contente.
As páginas em branco, em fúria
queriam que escrevesse
Cansado, questionei
sem ter nunca pretendido.
As horas passaram, ninguém mudou
os pensamentos foram
por outro rumo.
As páginas, em branco
os olhos fixos no telhado e a água
a gotejar.

Pensei em plantar árvores
como fizera antes
sem medo, unidos
sem espera nem encanto
que um dia nos deem sombra
descanso, gozo
e se secassem, plantamos.
Saí plantei
sem medo, sozinho
sem espera nem encanto
que um dia me deem abrigo
amparo, prazer
e se secarem, plantei.

Deitado, contente, meio morto
As páginas em branco, em fúria
não querem espaço.
Meus olhos fixos na ausência
a tinta, a chuva
gotejam sim.

Virei a página, sem fúria
sem medo nem encanto
a espera é um dia ter mais motivos,
prefiro tinta a não ter o que escrever.

Unwritten by Nicole Payne
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Feelings Exposed

And when you say that you need me tonight,
I can’t keep my feelings in disguise,
The white parts of my eyeballs illuminate.

Glass in the park. In: TURNER, Alex. Submarine. 2011.

spuria

E ele conseguia perceber coisas de acordo com o humor das pessoas que ouvia, a anatomia das expressões de sua face, até mesmo pelo tom de suas vozes… Muitos contrastes, muitos sentidos. De todos estes, aqueles que lhe causavam mais desconforto eram de percepção ainda mais subjetiva.

Lhe desagradava a incoerência. A falta de congruência entre aquilo que parecia ser processado na mente com o que saia de suas bocas. Como se algo no caminho entre o córtex e a expressão dos pensamentos, modificasse seu conteúdo de forma que, para ele, ao falar, as pessoas deixavam transparecer a duplicidade de suas expressões.

A partir dessa percepção, ele começou a duvidar do sentido que a linguagem tinha para as pessoas… E por ação de seu inconsciente, passou a usá-la de forma lacônica quando o contato com outras pessoas era absolutamente necessário. Plenamente só fazia com aqueles que seus sentidos não despertavam a sensação de duplicidade.