Seja gentil

Foi quando a manhã acabou. Dezenas de horas, algumas semanas… Não haviam mais vestígios do dia anterior no quarto. Foi o começo do fim. Suas pernas saíram da cadeira, e desapareceram dentro das meias. Foi quando começou a desmanchar, a se partir…

“Seja gentil, minha querida, dê-me um soco na face. Só um pouco gentil, eu deixo você me quebrar alguns dentes. Seja ao menos gentil, e pare de não responder.”

Ela seguiu andando, com seus sapatos altos, aparentando firmeza. Seus olhos tremiam, e eu apenas olhando, esperando. Até que ela se virou, abotoando o vestido, e forçou um sorriso.

A Curiosidade é um fardo pesado, difícil demais de manter, difícil demais de segurar.
A Curiosidade é um fardo pesado demais para manter, difícil de segurar.
Ainda mais neste frio.

“Seja gentil, e me faz um favor: seja só um pouco gentil. Esqueça o esmalte de suas unhas por um instante, desmanche meu nariz. Peça ajuda se precisar.”

“É tão difícil rasgar os laços que amarram? Talvez um “soco na face” seja cordial demais.”

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Gerúndio

Somente neste momento percebo que eu queria? Não, senão já teria saído disto muito tempo antes, ou nem ao menos teria entrado nesta. Quantas vezes isto já me acontecera e eu havia contornado por outros caminhos? Sim, eu segui.

Sobre a fonte

E em momentos como este tinha a impressão de estar pisando em terreno inseguro, numa camada de gêlo que, embora resistisse, já acusava  trincas e fendas embaixo de seus pés.

Os olhos dêle ainda se animavam, quando avistavam; porém, não era respondido com o mesmo calor, com a mesma naturalidade.

Envolvia-o um olhar velado, somente um olhar de simpatia afetuosa; era, no entanto, como água represada que perdeu o seu borbulhar de nascente.

Sempre que deixo

Sempre que deixo saírem as lágrimas
Escorrerem como lágrimas…
Sempre que passo pelos rios
E as pontes passam e voltam…
Retorno mais forte, com humores estranhos…
Mas sempre sinto que perdi algo nas águas do rio
E que cresci enquanto as lágrimas me cobriam.
Sempre que passo pela casa no campo
E as gramas me chamam…
Sempre que minhas pernas sentem as folhas
E as raízes prendem meus pés…
Queria que me levassem ao chão
E me preparassem mais forte para o dia que vem
Onde está aquele rio?
E as raízes que estavam no fundo?