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Numa manhã fria ao acordar ele soltou um grande suspiro. Nesse dia não acordou como em outras manhãs de sua vida. Repetidas vezes durante a noite lutara com sua mente que queria voltar à consciência. Não sabia descrever essa sensação que nunca sentiu. Essa sensação profunda, invisível e totalmente indescritível, a qual não tinha como ignorar era fatal. Mas quem se importava?

“Não sei o que sentir” – pensou ainda com a cabeça sob o travesseiro. Estava neutro, mas seus músculos embaixo do acolchoado estavam cheios de força, seu corpo quente e o sangue corria rápido em suas veias. Apenas infeliz. Não que estivesse mal, triste, sem ânimo, apenas infeliz com o que tinha. Seus pensamentos ativos, sua mente clara e organizada.

Lembrou-se de sua infância, suas angústias e alegrias; recordou-se das risadas de sua mãe e da noite anterior enquanto ela chorava em seus braços. Uma necessidade o invadiu – não precisava.  Veio à mente um dia frio como aquele, em que lhe seguraram a mão, nem áspera, nem macia, seus dedos finos e a palma forte.
– Sua mão. Aperto-a, ela me devolve o aperto mas não sinto seu calor, nem frio – ouviu estas palavras e revelou seu estado de espírito. Baixou a cabeça, respirou fundo e apertou mais os dedos.
– Não me sinto hoje, nem mal, nem bem…

Quis ele repetir suas esperanças e temores, mas não seriam novidades; não eraa necessário. Sabia que não deveria estar bem, contudo não sabia mais se estava certo do que sentia e, também, do que não sentia. Afinal, como se pode sentir-se bem quando não tem o que deseja? Pior que isso, saber que motivar-se e buscar não lhe dava margem para alcançar, seus objetivos eram demasiado distantes de sua realidade. Suas armas não bastavam.

saIR

Queria saber que chuva era aquela que dançava do outro lado do vidro. Abri a porta, saí, com os pés na terra, e ví quão chuvosa era. Por esse feliz instante, pensei que devia sair mais. Somente assim saberia se estou com sapatos confortáveis… Que deveria planejar e fazer mais, atacar em vez de defender,  sair de trás dessas páginas amarelas, detrás desse vidro molhado que me encharca de tristeza por não me impedir de ver o outro lado. Seguir em frente, talvez, é o melhor caminho para encontrar a curva de que preciso, e se não for, fui.

Viver

Na cama, meio morto, contente.
As páginas em branco, em fúria
queriam que escrevesse
Cansado, questionei
sem ter nunca pretendido.
As horas passaram, ninguém mudou
os pensamentos foram
por outro rumo.
As páginas, em branco
os olhos fixos no telhado e a água
a gotejar.

Pensei em plantar árvores
como fizera antes
sem medo, unidos
sem espera nem encanto
que um dia nos deem sombra
descanso, gozo
e se secassem, plantamos.
Saí plantei
sem medo, sozinho
sem espera nem encanto
que um dia me deem abrigo
amparo, prazer
e se secarem, plantei.

Deitado, contente, meio morto
As páginas em branco, em fúria
não querem espaço.
Meus olhos fixos na ausência
a tinta, a chuva
gotejam sim.

Virei a página, sem fúria
sem medo nem encanto
a espera é um dia ter mais motivos,
prefiro tinta a não ter o que escrever.

Unwritten by Nicole Payne

spuria

E ele conseguia perceber coisas de acordo com o humor das pessoas que ouvia, a anatomia das expressões de sua face, até mesmo pelo tom de suas vozes… Muitos contrastes, muitos sentidos. De todos estes, aqueles que lhe causavam mais desconforto eram de percepção ainda mais subjetiva.

Lhe desagradava a incoerência. A falta de congruência entre aquilo que parecia ser processado na mente com o que saia de suas bocas. Como se algo no caminho entre o córtex e a expressão dos pensamentos, modificasse seu conteúdo de forma que, para ele, ao falar, as pessoas deixavam transparecer a duplicidade de suas expressões.

A partir dessa percepção, ele começou a duvidar do sentido que a linguagem tinha para as pessoas… E por ação de seu inconsciente, passou a usá-la de forma lacônica quando o contato com outras pessoas era absolutamente necessário. Plenamente só fazia com aqueles que seus sentidos não despertavam a sensação de duplicidade.

Em busca do self

Organizei-me para ser compreendido por mim. Queria mesmo descobrir cada pedaço desconhecido de mim e lhe dar um nome compreensível. Uma vez ou outra me encontrei perdido, toda vez que me adjetivava. Sim, me perdi por entre os limitantes e incoerentes significados dos adjetivos que me impunha. Por várias vezes me questionando se descrições breves poderiam me sustentar, e cada vez mais percebendo que não poderia estar dentro destas. “Atitude mais frívola não há, o querer compreender-se”, pensava eu.

Ví-me como alguém sem sentido, sem congruência. E na pior das reflexões, eu ví que sim. Essa falta de sentido significava, novamente, que algo existia. E que tanto havia sentido como eu não podia alcançá-lo. Conhecer o significado disto estava acima de mim, eu me encontrava em um plano que não o meu. E quem sabe talvez se “não fosse”, eu pudesse ser dono do meu sentido, pois só assim para eu caber nas propriedades que me dava.

Contudo, todo momento de introspecção por si só é um processo orgânico de gradação e evolução. O acesso do conteúdo do seu ser é realmente algo não imediato. Todas as reflexões levam a planos que sempre são passageiros. Um lugar onde se chega e se partirá.

E me afastando do início, pude compreender. Tomei consciência que cada vez que me limito, me expando. Meu vaso, delimitado por atributos no fundo e pelas bordas, cada vez mais tenho que preencher.

Tudo que dizia, eu disse, e foi organizado. Dentre os mais diversos e contraditórios predicados que me empregava, pude ver que apesar de opostos, faziam parte de mim e que isto, apesar de confuso, não significava uma descrição errada. Era somente a descrição exata de mim, afinal se não fossem reais não as compreenderia, e compreendendo, gosto da contradição.

A vida não examinada não vale a pena ser vivida.
Sócrates (470-399 a.c.).