Sempre que deixo

Sempre que deixo saírem as lágrimas
Escorrerem como lágrimas…
Sempre que passo pelos rios
E as pontes passam e voltam…
Retorno mais forte, com humores estranhos…
Mas sempre sinto que perdi algo nas águas do rio
E que cresci enquanto as lágrimas me cobriam.
Sempre que passo pela casa no campo
E as gramas me chamam…
Sempre que minhas pernas sentem as folhas
E as raízes prendem meus pés…
Queria que me levassem ao chão
E me preparassem mais forte para o dia que vem
Onde está aquele rio?
E as raízes que estavam no fundo?

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Novamente

Posso sentir uma última vez
Essa memória que está se apagando em minha mente…?
Deixe-me, sentir mais uma vez
Já não sei dizer se estes ou aqueles momentos foram os mais fortes.

Oh, lembro-me de quando era livre
Antes d’a vida me separar do viver.
Lembro-me dos passos no escuro, sorrindo…

Se pudesse apenas sentir um pouco mais
Aqueles dias em que viver não implicava em ser
Como gostaria apenas viver mais uma vez e não precisar
Por que para ser é preciso não saber?

Oh, esta dor, maldito som, da vida
Se soubesse como é ser assim
Conheceria a mim mesmo
Eu me explodiria em vida.

Oh, me lembro de quando éramos livres
Gloriosos dias….
Em que não se acordava para a vida mas
para viver…
Oh, as dores tinham sons, sensações
Arranhões na pele…

Se pudesse sentir apenas um pouco mais
Aqueles dias em que lembrar era com o coração
Amávamos tudo que nos cercava
E não havia quem ou aonde.

Agora, não vemos sequer seus rostos
A vida nos tirou o viver
Feras selvagens… domadas.

Posso sentir uma última vez?
Para encontrar essa boa e velha memória que está se apagando em minha mente…?

bfnk

Início e fim numa noite

O início da noite foi longo
meus palpites eram verdade
você me viu eu te vi.

E aquilo que dissestes
era o tempo certo
o prazer foi meu.

A hora e o lugar
o olhar no seu rosto,
um brilho sincero.

Se estavas pronto ou não,
o estado de nossos corações
não houve tempo para esperar.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

Fomos pegos pela luz
de volta a realidade
até que minutos viraram horas.

Os minutos passaram
a cabine está lá fora
mas há de esperar.

Quando nos separamos
passando e
acreditando
que teria início e fim numa noite.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

Start of a new

“[…] só nos resta sermos sensatos.” Ouviu tudo sem dizer nada, uma lágrima, apenas, apontava em seu olho direito. Aquilo fazia eco no mais profundo inconsciente de sua mente, e agora, emergindo, o sentido era literal, na pele, nos olhos, nos ouvidos… Saiu e fechou a porta. O dia ensolarado, as folhas brilhando no topo das árvores, pessoas alegres sorrindo, crianças correndo, vivendo. Seu interior ruía. Eram dois mundos opostos num mesmo plano. O  clima era de encerramento, – um angustiante e excitante encerramento – uma grande cena, fantástica, terminara. Os dedos da vida tocando a página seguinte, indicando apenas o início do próximo capítulo. Um frenesi o invadiu.

De que se trata? O que sobrevirá? (…)  A cena acabara. A trama teria um novo rumo, novos papéis com os mesmos personagens. Viu a face de Fortuna de olhos vendados, arrepiada, por ter apontado desígnios tão semelhantes para humanos tão afins, ao ouvir seus nomes, um nome! A venda em seus olhos não permitia ver suas faces, mas não a privava do sentido da audição… Repassou os últimos momentos da cena as palavras ouvidas, em silêncio, antes do fim. “Estarei sempre ao seu lado”, disse-lhe. “Sempre que se mostrar são, sábio e gentil, estarei com você.”

A porta fechada às suas costas se fora. Abriu um livro e seus olhos caíram sobre estranhas palavras escritas, muitos séculos antes, pelo sábio Confúcio: “Por falta de uma compreensão profunda e uma mente larga, muitos grandes propósitos não foram atingidos”. Estas palavras pareciam as únicas na página, fitou-as e ouviu-as distintamente como se  alguém as pronunciasse. Estas palavras vinham do passado atingindo inexoravelmente sua mente e coração, e ele as recebeu com humildade. Sabia que sua mente não havia sido larga o suficiente e, não compreendendo a cena em ação, seu propósito não fora atingido. Sua visão escureceu, fechou o livro devagar e entregou seu espírito. A partir dali teria uma vida feliz, não mais deixaria aquela mesma  mente o guiar, estaria voltado com carinho para tudo que o trouxesse qualidade de vida e não se submeteria cegamente aos caprichos da sorte e às paixões. Dali em diante não mais moldaria sua vida,  mas seria moldado por ela.

A vida passara a página. Seu personagem introduzia o capítulo seguinte dizendo para si, sob a luz do sol:

“Eu sei o que estou fazendo. Eu sei muito bem o que estou fazendo, agora nada me é estranho. Tudo isso já me foi dito muito tempo atrás, mas só agora eu escutei. Tinham-me dito, mas só agora acreditei.”

p. 785

Numa manhã fria ao acordar ele soltou um grande suspiro. Nesse dia não acordou como em outras manhãs de sua vida. Repetidas vezes durante a noite lutara com sua mente que queria voltar à consciência. Não sabia descrever essa sensação que nunca sentiu. Essa sensação profunda, invisível e totalmente indescritível, a qual não tinha como ignorar era fatal. Mas quem se importava?

“Não sei o que sentir” – pensou ainda com a cabeça sob o travesseiro. Estava neutro, mas seus músculos embaixo do acolchoado estavam cheios de força, seu corpo quente e o sangue corria rápido em suas veias. Apenas infeliz. Não que estivesse mal, triste, sem ânimo, apenas infeliz com o que tinha. Seus pensamentos ativos, sua mente clara e organizada.

Lembrou-se de sua infância, suas angústias e alegrias; recordou-se das risadas de sua mãe e da noite anterior enquanto ela chorava em seus braços. Uma necessidade o invadiu – não precisava.  Veio à mente um dia frio como aquele, em que lhe seguraram a mão, nem áspera, nem macia, seus dedos finos e a palma forte.
– Sua mão. Aperto-a, ela me devolve o aperto mas não sinto seu calor, nem frio – ouviu estas palavras e revelou seu estado de espírito. Baixou a cabeça, respirou fundo e apertou mais os dedos.
– Não me sinto hoje, nem mal, nem bem…

Quis ele repetir suas esperanças e temores, mas não seriam novidades; não eraa necessário. Sabia que não deveria estar bem, contudo não sabia mais se estava certo do que sentia e, também, do que não sentia. Afinal, como se pode sentir-se bem quando não tem o que deseja? Pior que isso, saber que motivar-se e buscar não lhe dava margem para alcançar, seus objetivos eram demasiado distantes de sua realidade. Suas armas não bastavam.

saIR

Queria saber que chuva era aquela que dançava do outro lado do vidro. Abri a porta, saí, com os pés na terra, e ví quão chuvosa era. Por esse feliz instante, pensei que devia sair mais. Somente assim saberia se estou com sapatos confortáveis… Que deveria planejar e fazer mais, atacar em vez de defender,  sair de trás dessas páginas amarelas, detrás desse vidro molhado que me encharca de tristeza por não me impedir de ver o outro lado. Seguir em frente, talvez, é o melhor caminho para encontrar a curva de que preciso, e se não for, fui.

Viver

Na cama, meio morto, contente.
As páginas em branco, em fúria
queriam que escrevesse
Cansado, questionei
sem ter nunca pretendido.
As horas passaram, ninguém mudou
os pensamentos foram
por outro rumo.
As páginas, em branco
os olhos fixos no telhado e a água
a gotejar.

Pensei em plantar árvores
como fizera antes
sem medo, unidos
sem espera nem encanto
que um dia nos deem sombra
descanso, gozo
e se secassem, plantamos.
Saí plantei
sem medo, sozinho
sem espera nem encanto
que um dia me deem abrigo
amparo, prazer
e se secarem, plantei.

Deitado, contente, meio morto
As páginas em branco, em fúria
não querem espaço.
Meus olhos fixos na ausência
a tinta, a chuva
gotejam sim.

Virei a página, sem fúria
sem medo nem encanto
a espera é um dia ter mais motivos,
prefiro tinta a não ter o que escrever.

Unwritten by Nicole Payne