Início e fim numa noite

O início da noite foi longo
meus palpites eram verdade
você me viu eu te vi.

E aquilo que dissestes
era o tempo certo
o prazer foi meu.

A hora e o lugar
o olhar no seu rosto,
um brilho sincero.

Se estavas pronto ou não,
o estado de nossos corações
não houve tempo para esperar.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

Fomos pegos pela luz
de volta a realidade
até que minutos viraram horas.

Os minutos passaram
a cabine está lá fora
mas há de esperar.

Quando nos separamos
passando e
acreditando
que teria início e fim numa noite.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

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“[…] só nos resta sermos sensatos.” Ouviu tudo sem dizer nada, uma lágrima, apenas, apontava em seu olho direito. Aquilo fazia eco no mais profundo inconsciente de sua mente, e agora, emergindo, o sentido era literal, na pele, nos olhos, nos ouvidos… Saiu e fechou a porta. O dia ensolarado, as folhas brilhando no topo das árvores, pessoas alegres sorrindo, crianças correndo, vivendo. Seu interior ruía. Eram dois mundos opostos num mesmo plano. O  clima era de encerramento, – um angustiante e excitante encerramento – uma grande cena, fantástica, terminara. Os dedos da vida tocando a página seguinte, indicando apenas o início do próximo capítulo. Um frenesi o invadiu.

De que se trata? O que sobrevirá? (…)  A cena acabara. A trama teria um novo rumo, novos papéis com os mesmos personagens. Viu a face de Fortuna de olhos vendados, arrepiada, por ter apontado desígnios tão semelhantes para humanos tão afins, ao ouvir seus nomes, um nome! A venda em seus olhos não permitia ver suas faces, mas não a privava do sentido da audição… Repassou os últimos momentos da cena as palavras ouvidas, em silêncio, antes do fim. “Estarei sempre ao seu lado”, disse-lhe. “Sempre que se mostrar são, sábio e gentil, estarei com você.”

A porta fechada às suas costas se fora. Abriu um livro e seus olhos caíram sobre estranhas palavras escritas, muitos séculos antes, pelo sábio Confúcio: “Por falta de uma compreensão profunda e uma mente larga, muitos grandes propósitos não foram atingidos”. Estas palavras pareciam as únicas na página, fitou-as e ouviu-as distintamente como se  alguém as pronunciasse. Estas palavras vinham do passado atingindo inexoravelmente sua mente e coração, e ele as recebeu com humildade. Sabia que sua mente não havia sido larga o suficiente e, não compreendendo a cena em ação, seu propósito não fora atingido. Sua visão escureceu, fechou o livro devagar e entregou seu espírito. A partir dali teria uma vida feliz, não mais deixaria aquela mesma  mente o guiar, estaria voltado com carinho para tudo que o trouxesse qualidade de vida e não se submeteria cegamente aos caprichos da sorte e às paixões. Dali em diante não mais moldaria sua vida,  mas seria moldado por ela.

A vida passara a página. Seu personagem introduzia o capítulo seguinte dizendo para si, sob a luz do sol:

“Eu sei o que estou fazendo. Eu sei muito bem o que estou fazendo, agora nada me é estranho. Tudo isso já me foi dito muito tempo atrás, mas só agora eu escutei. Tinham-me dito, mas só agora acreditei.”