Start of a new

“[…] só nos resta sermos sensatos.” Ouviu tudo sem dizer nada, uma lágrima, apenas, apontava em seu olho direito. Aquilo fazia eco no mais profundo inconsciente de sua mente, e agora, emergindo, o sentido era literal, na pele, nos olhos, nos ouvidos… Saiu e fechou a porta. O dia ensolarado, as folhas brilhando no topo das árvores, pessoas alegres sorrindo, crianças correndo, vivendo. Seu interior ruía. Eram dois mundos opostos num mesmo plano. O  clima era de encerramento, – um angustiante e excitante encerramento – uma grande cena, fantástica, terminara. Os dedos da vida tocando a página seguinte, indicando apenas o início do próximo capítulo. Um frenesi o invadiu.

De que se trata? O que sobrevirá? (…)  A cena acabara. A trama teria um novo rumo, novos papéis com os mesmos personagens. Viu a face de Fortuna de olhos vendados, arrepiada, por ter apontado desígnios tão semelhantes para humanos tão afins, ao ouvir seus nomes, um nome! A venda em seus olhos não permitia ver suas faces, mas não a privava do sentido da audição… Repassou os últimos momentos da cena as palavras ouvidas, em silêncio, antes do fim. “Estarei sempre ao seu lado”, disse-lhe. “Sempre que se mostrar são, sábio e gentil, estarei com você.”

A porta fechada às suas costas se fora. Abriu um livro e seus olhos caíram sobre estranhas palavras escritas, muitos séculos antes, pelo sábio Confúcio: “Por falta de uma compreensão profunda e uma mente larga, muitos grandes propósitos não foram atingidos”. Estas palavras pareciam as únicas na página, fitou-as e ouviu-as distintamente como se  alguém as pronunciasse. Estas palavras vinham do passado atingindo inexoravelmente sua mente e coração, e ele as recebeu com humildade. Sabia que sua mente não havia sido larga o suficiente e, não compreendendo a cena em ação, seu propósito não fora atingido. Sua visão escureceu, fechou o livro devagar e entregou seu espírito. A partir dali teria uma vida feliz, não mais deixaria aquela mesma  mente o guiar, estaria voltado com carinho para tudo que o trouxesse qualidade de vida e não se submeteria cegamente aos caprichos da sorte e às paixões. Dali em diante não mais moldaria sua vida,  mas seria moldado por ela.

A vida passara a página. Seu personagem introduzia o capítulo seguinte dizendo para si, sob a luz do sol:

“Eu sei o que estou fazendo. Eu sei muito bem o que estou fazendo, agora nada me é estranho. Tudo isso já me foi dito muito tempo atrás, mas só agora eu escutei. Tinham-me dito, mas só agora acreditei.”

Viver

Na cama, meio morto, contente.
As páginas em branco, em fúria
queriam que escrevesse
Cansado, questionei
sem ter nunca pretendido.
As horas passaram, ninguém mudou
os pensamentos foram
por outro rumo.
As páginas, em branco
os olhos fixos no telhado e a água
a gotejar.

Pensei em plantar árvores
como fizera antes
sem medo, unidos
sem espera nem encanto
que um dia nos deem sombra
descanso, gozo
e se secassem, plantamos.
Saí plantei
sem medo, sozinho
sem espera nem encanto
que um dia me deem abrigo
amparo, prazer
e se secarem, plantei.

Deitado, contente, meio morto
As páginas em branco, em fúria
não querem espaço.
Meus olhos fixos na ausência
a tinta, a chuva
gotejam sim.

Virei a página, sem fúria
sem medo nem encanto
a espera é um dia ter mais motivos,
prefiro tinta a não ter o que escrever.

Unwritten by Nicole Payne