Parceiros da Solidão

Cada parte do seu corpo sente o reflexo do profundo vazio e sua necessidade de ter o espaço ocupado.
Sentes a oquidão do seu ser transbordar de falta.
Sim, a ausência lhe é tanta que transborda de ti.

Admitamos que acima de tudo a carência, a solidão ou a solitude, são a prova de uma insatisfação causada pela falta de algum bem necessário ao bem-estar. De essência selvagem, assim como necessidades primitivas de sede e fome, está em nós, e de forma autônoma.

Por falar em autonomia, agora com um outro sentido da palavra.

Admitamos novamente que a escolha por estar só, isolado, ermo, tem essência mais rebuscada, sendo preciso estar no controle para ser positiva, prazerosa e construtiva (a reclusão), mesmo que esta solitude seja imposta.

“Da solidão para a solitude em busca de reflexão.” (Some dizzy whore, 1804).

Creio que não fazes ideia do que isto significa quando falo de carência e solitude. Pelo menos até então o que tens de mim são palavras supérfluas, frases inúteis e conclusões absurdas… Mas, digo, uma nebulosa relação de troca e oposição há entre os dois.

(…)

Concordemos que ser/estar carente não necessariamente se delimita a quem está só, e na verdade esta é a menor parte. Estar carente é ter companhia. Aquele que tem companhia está sempre caído na mais profunda carência de precisar. E até para as companhias não-físicas, o “precisar” da carência é sua companhia, que pode ser a esperança (de ser preenchido) ou um sonho qualquer. Sim, admita novamente que quem precisa não está só, o querer já lhe é uma companhia.

Aquele que precisa está a fim de preencher seu vazio e tem a necessidade como fonte de força primária. Anda pelo caminho que a carência quiser que siga. E é a intensidade de sua necessidade quem determina a velocidade de seus passos.

E o destino de sua caminhada é encontrar uma fonte que jorra carência…

Carência
s.f. ter sede.

Solitude
s.f. não ter sede.

Não pense que a ausência de sede de alguém solitário é sinônimo de estar saciado. Basta refletir para entender que mesmo aquele que mais bebe, nunca estará saciado. Quanto mais carência se bebe mais sede, mais sede, mais “precisar” se tem. E quando num dia… quando num infértil dia esta fonte secar, a carência deixará de molhar seus lábios e não mais sentirá sede.

Solitude é não ter sede.

(…)

Não te preocupas meu caro amigo: nosso caminho passa pela carência.

Assim como os ponteiros do relógio que num círculo vicioso passa dezenas de vezes pelo mesmo lugar, esses ciclos se renovarão e se renovarão e se renovarão. Tempo após tempo. Indo da maior abundância de carência para o mais profundo – e seco – poço de solidão.

Não te preocupas minha cara amiga: nosso caminho também passa pela solitude.

Mesmo que seja um destino passageiro aonde se chega e, a partir de onde está, toma-se um novo rumo. Ou mesmo quando  por fatalidade a fonte que estava viva toda uma vida secou.

Tudo é passageiro.

Sim, isto é fatal.
E é nosso presente atual.
Ou será nosso futuro, o qual será novamente, uma atualidade.

O amor é fatal.
Não quisera admitir mas ele é tão intrínseco quanto a carência.
E a única garantia que lhes dou, é que essa necessidade se renovará e que dia após dia caminharemos neste ciclo, ora sedentos, ora saturados…

do amor.

Aperto

“… Ia para os campos , a fim de estar só; deixava-me ficar ao pé de uma árvore, chorava, chamava por Deus e dizia-lhes tolices; quisera ser como as toupeiras , que via espetadas nas canas , com bichos a devorar-lhes as entranhas.

Enfim , queria rebentar , quando me lembrava de que outros , naquele instante , se a chavam abraçados ; batia grandes pancadas no chão, com o cajado ; talvez não creia; mas ,só a idéia de ir a um café me enchia de desgosto.

Pois , calmamente , um dia depois do outro , uma primavera atrás de um inverno , um outono em cima de um verão , a coisa foi-se passando , pouco a pouco , gota a gota; tudo sumiu , tudo fugiu , tudo desceu , como se diz , porque no fundo sempre resta alguma coisa , assim…um peso aqui , no peito!

Mas, visto que é a sorte que nos espera, não deve uma pessoa desanimar porque outros morrem , querer morrer também …

É preciso criar ânimo, Sr. Bovary , isso há de passar!” 

In: Madame Bovary. FLAUBERT, Gustave. Tradução de Araújo Nabuco, – São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 20.