Nota

[in]diferença

N’um certo tempo não se preocupa mais com alguns detalhes que não produzem efeito.
Uma hora a quantidade de atenção dada a certos detalhes, diminui.
Como se o passar do tempo deprimisse a sensibil[idade].
Aquele pedaço no meio do todo já não faz a mesma diferença.

13 June, 2012

Que é

Que é a vida, senão um desfile de memórias, de ideias sem sentido duradouro? E não são essas recordações, essas ideias, a realidade de sentido e importância permanentes?

Seja gentil

Foi quando a manhã acabou. Dezenas de horas, algumas semanas… Não haviam mais vestígios do dia anterior no quarto. Foi o começo do fim. Suas pernas saíram da cadeira, e desapareceram dentro das meias. Foi quando começou a desmanchar, a se partir…

“Seja gentil, minha querida, dê-me um soco na face. Só um pouco gentil, eu deixo você me quebrar alguns dentes. Seja ao menos gentil, e pare de não responder.”

Ela seguiu andando, com seus sapatos altos, aparentando firmeza. Seus olhos tremiam, e eu apenas olhando, esperando. Até que ela se virou, abotoando o vestido, e forçou um sorriso.

A Curiosidade é um fardo pesado, difícil demais de manter, difícil demais de segurar.
A Curiosidade é um fardo pesado demais para manter, difícil de segurar.
Ainda mais neste frio.

“Seja gentil, e me faz um favor: seja só um pouco gentil. Esqueça o esmalte de suas unhas por um instante, desmanche meu nariz. Peça ajuda se precisar.”

“É tão difícil rasgar os laços que amarram? Talvez um “soco na face” seja cordial demais.”

Gerúndio

Somente neste momento percebo que eu queria? Não, senão já teria saído disto muito tempo antes, ou nem ao menos teria entrado nesta. Quantas vezes isto já me acontecera e eu havia contornado por outros caminhos? Sim, eu segui.

Sobre a fonte

E em momentos como este tinha a impressão de estar pisando em terreno inseguro, numa camada de gêlo que, embora resistisse, já acusava  trincas e fendas embaixo de seus pés.

Os olhos dêle ainda se animavam, quando avistavam; porém, não era respondido com o mesmo calor, com a mesma naturalidade.

Envolvia-o um olhar velado, somente um olhar de simpatia afetuosa; era, no entanto, como água represada que perdeu o seu borbulhar de nascente.

Nota

Novamente

Posso sentir uma última vez
Essa memória que está se apagando em minha mente…?
Deixe-me, sentir mais uma vez
Já não sei dizer se estes ou aqueles momentos foram os mais fortes.

Oh, lembro-me de quando era livre
Antes d’a vida me separar do viver.
Lembro-me dos passos no escuro, sorrindo…

Se pudesse apenas sentir um pouco mais
Aqueles dias em que viver não implicava em ser
Como gostaria apenas viver mais uma vez e não precisar
Por que para ser é preciso não saber?

Oh, esta dor, maldito som, da vida
Se soubesse como é ser assim
Conheceria a mim mesmo
Eu me explodiria em vida.

Oh, me lembro de quando éramos livres
Gloriosos dias….
Em que não se acordava para a vida mas
para viver…
Oh, as dores tinham sons, sensações
Arranhões na pele…

Se pudesse sentir apenas um pouco mais
Aqueles dias em que lembrar era com o coração
Amávamos tudo que nos cercava
E não havia quem ou aonde.

Agora, não vemos sequer seus rostos
A vida nos tirou o viver
Feras selvagens… domadas.

Posso sentir uma última vez?
Para encontrar essa boa e velha memória que está se apagando em minha mente…?

bfnk

Início e fim numa noite

O início da noite foi longo
meus palpites eram verdade
você me viu eu te vi.

E aquilo que dissestes
era o tempo certo
o prazer foi meu.

A hora e o lugar
o olhar no seu rosto,
um brilho sincero.

Se estavas pronto ou não,
o estado de nossos corações
não houve tempo para esperar.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

Fomos pegos pela luz
de volta a realidade
até que minutos viraram horas.

Os minutos passaram
a cabine está lá fora
mas há de esperar.

Quando nos separamos
passando e
acreditando
que teria início e fim numa noite.

Quando começamos
ambos partidos
não acreditando
que teria início e fim numa noite.

Start of a new

“[…] só nos resta sermos sensatos.” Ouviu tudo sem dizer nada, uma lágrima, apenas, apontava em seu olho direito. Aquilo fazia eco no mais profundo inconsciente de sua mente, e agora, emergindo, o sentido era literal, na pele, nos olhos, nos ouvidos… Saiu e fechou a porta. O dia ensolarado, as folhas brilhando no topo das árvores, pessoas alegres sorrindo, crianças correndo, vivendo. Seu interior ruía. Eram dois mundos opostos num mesmo plano. O  clima era de encerramento, – um angustiante e excitante encerramento – uma grande cena, fantástica, terminara. Os dedos da vida tocando a página seguinte, indicando apenas o início do próximo capítulo. Um frenesi o invadiu.

De que se trata? O que sobrevirá? (…)  A cena acabara. A trama teria um novo rumo, novos papéis com os mesmos personagens. Viu a face de Fortuna de olhos vendados, arrepiada, por ter apontado desígnios tão semelhantes para humanos tão afins, ao ouvir seus nomes, um nome! A venda em seus olhos não permitia ver suas faces, mas não a privava do sentido da audição… Repassou os últimos momentos da cena as palavras ouvidas, em silêncio, antes do fim. “Estarei sempre ao seu lado”, disse-lhe. “Sempre que se mostrar são, sábio e gentil, estarei com você.”

A porta fechada às suas costas se fora. Abriu um livro e seus olhos caíram sobre estranhas palavras escritas, muitos séculos antes, pelo sábio Confúcio: “Por falta de uma compreensão profunda e uma mente larga, muitos grandes propósitos não foram atingidos”. Estas palavras pareciam as únicas na página, fitou-as e ouviu-as distintamente como se  alguém as pronunciasse. Estas palavras vinham do passado atingindo inexoravelmente sua mente e coração, e ele as recebeu com humildade. Sabia que sua mente não havia sido larga o suficiente e, não compreendendo a cena em ação, seu propósito não fora atingido. Sua visão escureceu, fechou o livro devagar e entregou seu espírito. A partir dali teria uma vida feliz, não mais deixaria aquela mesma  mente o guiar, estaria voltado com carinho para tudo que o trouxesse qualidade de vida e não se submeteria cegamente aos caprichos da sorte e às paixões. Dali em diante não mais moldaria sua vida,  mas seria moldado por ela.

A vida passara a página. Seu personagem introduzia o capítulo seguinte dizendo para si, sob a luz do sol:

“Eu sei o que estou fazendo. Eu sei muito bem o que estou fazendo, agora nada me é estranho. Tudo isso já me foi dito muito tempo atrás, mas só agora eu escutei. Tinham-me dito, mas só agora acreditei.”